Luta de classes na Era da Depressão - Debates Populares

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domingo, 8 de março de 2020

Luta de classes na Era da Depressão

Não é preciso entender muito de psicanálise para perceber que vivemos na Era da Depressão. Sim, nossa sociedade doente está adoecendo os corpos e as subjetividades das pessoas. Sobretudo das mulheres, sobretudo do povo negro e, principalmente, da juventude. 

Quem são estes sujeitos adoecidos? Tenho algumas hipóteses. A primeira e óbvia é que nossa vida não está nada fácil. Falo como mulher negra, jovem, nordestina, que luta para encontrar um lugar neste século, diante da tão árdua e primordial tarefa de sobreviver. Estar viva é artigo de luxo em nossa sociedade, em nosso país, pois ele é genocida.

Esse é o primeiro dado objetivo: as violências institucionalizadas marcam nossos corpos, levam nossas vidas e não teriam como não afetar inescrupulosamente as nossas subjetividades. Violência é cotidiano para as mulheres negras. Somos vilipendiadas pelo patriarcado da forma mais cruel e discreta. Mesmo assim não desistimos e seguimos. Driblando os estupros, o assédio ininterrupto, a clandestinidade das escolhas mais íntimas, a criminalização, o isolamento político, o silenciamento, os tapas, as dores, os remédios, as tentativas de nos dizer que somos loucas por querermos ser quem queremos ser: pessoas livres.

Recentemente, tive a oportunidade de mergulhar a fundo na história das Mães de Maio, movimento de mães que perderam seus filhos para a violência policial e que lutam por um novo sistema de segurança, justiça, e, mais ainda, pela memória dos mortos e pelo direito à vida dos vivos. Muita gente conhece e reconhece a garra destas mulheres que vão para a frente dos camburões e enfrentam de peito aberto as balas de canhão para afirmar a dignidade inabalável de seu povo. 
O que quase ninguém sabe é o que a maioria delas é abandonada pelos seus maridos depois que perdem seus filhos e arrebatada por um profundo isolamento social, pois, quase ninguém suporta a amargura que elas levam consigo durante o luto. Quase ninguém sabe que estas mulheres adquirem câncer e enfrentam sozinhas a dor da perda, o medo da morte, os desafios de manter uma família durante o luto, o constrangimento violador da Justiça, que força estas mulheres ter que “provar” que seus filhos não mereciam morrer, que no Brasil não tem pena de morte, ou não deveria ter.

A juventude também padece destas psicopatologias que todo dia a ciência arruma um termo diferente para classificar e medicar. A indústria farmacêutica solta fogos, o narcotráfico diz amém, a polícia diz também e a indústria cultural se apropria da narrativa suicida para vender a viabilidade econômica do futuro. Num mundo extremamente monetarizado, com uma riqueza extremamente concentrada e um contingente populacional revoltado, uma massa precarizada e amontoada nos conglomerados das grandes cidades cinzentas é, para os detentores do poder, como uma “bomba relógio prestes a explodir”. Por isso é melhor mesmo que estes jovens indecisos, angustiados com as incertezas de nosso tempo, se joguem de pontes, cortem seus pulsos, se entupam de remédios e morram solitários, pois neste mundo não haverá mesmo espaço para nós.

Quero voltar à pergunta título. Como, no meio desta insustentável dureza de viver, conseguiremos nos organizar politicamente? Como nos manteremos firmes e fortes na batalha por um mundo melhor, ter condições de elaborar, formular o programa de revolução que nos guiará nas próximas décadas na guerra contra o neoliberalismo? Tenho algumas pistas.

Precisamos incorporar mais o jeito do povo negro e das mulheres de fazerem política. E, aqui, nem estou falando dos movimentos organizados. Meu foco é num mergulho profundo sobre as formas de sobrevivência do povo brasileiro, que tem em suas raízes os povos escravizados vindos de África, que sobreviveram e conseguiram se manter soberanos, mesmo sendo alvo do maior laboratório de crimes da humanidade: a escravidão. E ressalto o papel das mulheres como central na construção dos laços que fizeram este povo atravessar os séculos de martírio e chegar até aqui onde estamos, lutando bravamente.

A estrutura política masculina e embranquecida muitas vezes atinge a nossos corpos, enquanto mulheres, negros e jovens, de uma forma muito perniciosa. Nos desumaniza, nos embrutece. A dureza da vida também faz isso conosco todo o tempo, e precisamos compreender o amor como um exercício revolucionário, contra-hegemônico à cultura de ódio, de competição, de matança imposta pelo capitalismo, pelo racismo, pelo patriarcado. Não estou falando aqui de atitudes individuais: estou falando da sistematização desta dimensão da luta de classes nos marcos organizativos de nossa luta diária. Ou não resistiremos, sucumbiremos ao suicídio, às armadilhas do capitalismo, à sistemática anestesia social dos ansiolíticos e antidepressivos.

Chorem juntos e juntas até a dor semanal extravasar total; façam isso de novo na semana que vem. Saiam para se divertir juntos ao menos uma vez no mês para lembrar e se convencer mais uma vez de que lutar vale a pena pois vocês já são a chama da transformação, são agentes de amor, empatia e igualdade. Sem isso, não chegaremos onde planejamos chegar. Não chegaremos vivas.

Bruna Rocha 

Adaptado de: https://fpabramo.org.br/2017/04/11/luta-de-classes-na-era-da-depressao/#bruna-rocha

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